O cuidado com a Criação transforma-se numa árvore de Natal em Triunfo

 “A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção da nossa casa comum (...) Precisamos de um debate que nos una a todos, porque o desafio ambiental, que vivemos, e as suas raízes humanas dizem respeito e têm impacto sobre todos nós”. (Papa Francisco/ 2015, p. 12-13).


O apelo e chamado “para a ação” feitos pelo Papa Francisco na Laudato Si’ nos questiona, entre outras dimensões dessa mágica obra, para pensarmos o nosso consumo dos bens duráveis e não duráveis. Temos o direito de consumir imperante como uma necessidade, e o que naturalmente (não necessariamente natural) decorre desse consumo, o seu descarte.  Aquilo que aparentemente não nos serve mais é descartado e “rotulado” como lixo! Entretanto, se a famosa frase dita por Lavoisier[1] que “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” podemos ver, por exemplo, a fabricação de uma garrafa PET advinda do petróleo, um recurso não renovável, seu caminho até servir para o consumo e sua destinação para o lixo, será que não vem a interrogação do local onde esse resíduo vai parar? Não é em outro planeta que esse lixo vai parar. Assim como tantos outros “lixos”, bilhões de garrafas PET vão parar na natureza, em terrenos baldios, em lixões para se decompor em mais de 400 anos, nos lagos, rios ou mares.
Essa poluição deve-nos doer, não somente aos olhos quando vemos a natureza poluída, mas ao coração, por exemplo, ao saber que um dos principais poluentes encontrados nos oceanos é o plástico, das bilhões de garrafas PET que são fabricadas lá, naquele processo inicial e que podem matar por asfixia ou intoxicação, em contato com materiais orgânicos, diversos animais em diversos ecossistemas. A esse grave problema a humanidade não está imune, pelo contrário, representa um perigo para o meio ambiente e, portanto, para a saúde humana, desde a possível alimentação de peixes contaminados até um desequilíbrio na cadeia alimentar, afinal não vivemos num “caixinha” separada da natureza, vivemos na natureza, somos natureza, necessitamos dela para sobreviver. Nossas escolhas tem um papel fundamental, levando a repercussões boas ou ruins.          O descarte de cada dia poderá gerar renda e sustentabilidade ou, ao contrário, degradação e miséria. Contribuirá para um planeta sadio ou o levará à destruição (CARNEIRO/2012, p. 8). Somos responsáveis por isso, somos donos dos nossos resíduos, sejamos setores público, privado ou população em geral, resíduos gerados pelas nossas atividades humanas, muitas vezes tão desumanas.
                Diante de uma realidade literalmente tão devastadora, será que ainda encontramos soluções sustentáveis para colaborar com a vida da nossa Mãe Terra? A luz da escolha feita por nosso pai Seráfico São Francisco pode nos inspirar nesse cuidado com a nossa irmã e Mãe Terra, por uma ecologia integral. O poder da colaboração é maior do que o da destruição, e subsídios e leis não faltam para essa efetivação prática desse nosso “ser tão” franciscano de ser cidadão. Já que estamos falando de resíduos, por que não citar a Política Nacional de Resíduos Sólidos – Lei nº 12.305/2010 – que regulamenta sobre as responsabilidades de pessoas físicas e jurídicas, de direito público e privado e a população em geral para gerir os nossos resíduos sólidos, desmerecidamente tratados como “lixo”. Nos coloca que esse processo deve ser realizado com respeito ao ecossistema e à comunidade local, propondo uma formação de uma economia circular, contrapondo-se ao atual modelo industrial linear, de extração, fabricação, consumo e descarte (CARNEIRO/2012, p. 9).
Diante de tanta conversa de descarte, degradação, ecologia integral como solução deve pairar uma interrogação de qual a relação e onde estará a árvore dita lá... no título, desse tal de Triunfo. Pois bem, como disse o poder da colaboração é maior e começando por Triunfo, foi lá nessa cidade tão bonita e acolhedora do sertão pernambucano que foi construída e erguida uma árvore de Natal com garrafas PET! Idealizada e proposta por Frei César Lindemberg OFM, entre seus 5 metros de altura, aproximadamente 1.200 garrafas PET, mais de 1700 grampos, tubos de cola, arames e vela, foi construída pela participação ativa dos frades e postulantes do Convento São Boaventura, a JUFRA (Fraternidade Estrela de Assis), Família Franciscana, amigos (as) do Convento e comunidade local para irradiar essa luz que a reciclagem desses materiais pode trazer. As garrafas PET foram doadas pela comunidade e a estrutura em ferro da árvore foi doada pela Prefeitura Municipal de Triunfo.





Todo o processo foi composto pela limpeza, corte, retirada da tampa e anel das garrafas sendo quase tudo reciclado, exceto o rótulo. Foram produzidos variados enfeites natalinos que foram pintados com tintas e que deram forma a guirlandas e a bolas feitas da parte superior e inferior. Essa não vem a ser uma solução para todos os problemas acima mencionados, mas surge a partir de um trabalho colaborativo mostrando que é possível, ser um símbolo, mas nada de figurativo, que exemplifica a necessidade do nosso cuidado para com a natureza, procurando propor pelo exemplo, uma mudança possível de ideias e atitudes através da reflexão ao pensar pelo que produzimos no descarte desses resíduos.
Propõe também que esses resíduos enxergados em sua beleza possam servir de alternativas para uma reciclagem popular, gerando renda no trabalho do reaproveitamento desse processo sustentável e uma gestão integrada dos resíduos como faz o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, como por exemplo. Representa nossa opção pela busca que o cuidado com a Terra deve ser integral refletindo a partir do consumo consciente.
Isso reafirma a importância dos serviços da Justiça, Paz e Integridade da Criação (JPIC) da Província Franciscana Santo Antônio do Brasil e da Secretaria de Direitos Humanos, Justiça, Paz e Integridade da Criação (DHJUPIC) da JUFRA, sendo essa presença franciscana de uma ação evangelizadora ativa e desafiadora no mundo.
Que essa ideia da árvore de Natal como tantas outras que podem ser realizadas venham simbolizar a vida, a paz e alegria que podemos construir hoje.
A árvore de Natal foi “inaugurada” ao lado do Convento São Boaventura dia 01 de dezembro do presente ano, juntamente com a abertura da Exposição “Por entre Santos” realizada pelo SESC Triunfo, também no Convento. Ambas, ficarão expostas até o dia 06 de janeiro de 2016, Dia de Reis.

Por Magno Robério Gonçalves Almeida, JUFRA
Secretário Regional para o Distrito Sertão
Secretário Local de DHJUPIC


Referências:

CARNEIRO, André Silvani da Silva. Lixo, quem se lixa? : o bê-á-bá da Política Nacional de Resíduos Sólidos. Coordenação Centro de Apoio às Promotorias de Defesa do Meio Ambiente; Recife: Procuradoria Geral de Justiça, 2012. 
ECYCLE. Garrafas PET: Da produção ao descarte. Disponível em: http://www.ecycle.com.br/component/content/article/57-plastico/231-reciclagem-garrafas--pet.html. Acesso em 01 dez 2015.
MOVIMENTO NACIONAL DOS CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS. Reciclagem Popular. Disponível em: http://www.mncr.org.br/setores/reciclagem-popular. Acesso em 02 dez 2015.
PAPA FRANCISCO, Carta Encíclica Laudato Si’. Disponível em: http://w2.vatican.va/content/dam/francesco/pdf/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si_po.pdf. (Busca realizada através do Blog DHJUPIC: http://dhjupic.blogspot.com.br/). Acesso em: 02 dez 2015.




[1] (Paris, 1743-1794; in: CARNEIRO/2015)  

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